Thursday, March 20, 2008

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Lugar da Cura da Alma
Casa da Vida
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Feitas em argila quente, as tabletas, primeiros livros, surgiram na Suméria, hoje sul do Iraque, em 3300 a.C.. Assim as primeiras bibliotecas, casas de tabletas. Os sumérios, crendo na origem sobrenatural do livro, atribuíam a Nidaba, deusa dos cereais, a sua invenção, e a esta os escribas oravam antes e depois do seu labor. Várias cidades sumérias possuíam a sua biblioteca, Ur e Adab (2800-2700 a.C.), Fará, Abu Salabik e Kis (2600-2500 a.C.), Lagas (2400 a.C.) e, cerca de 2200 a.C.,o príncipe Gudea, rei de Lagash, cria uma biblioteca com textos históricos e poemas de Enkheduanna, a primeira escritora conhecida, hinos à terrível deusa Inanna.

Na Síria, eram conhecidas as bibliotecas de Ebla (2500 a.C.) dedicada à pesquisa filológica, devastada pelo fogo dos saqueadores aquando do ataque ao palácio real. Outras havia, a do palácio de Zimri-Lim, a de Ugarit, multilingue e que perdurou até 1190 a.C..

A sul da actual Bagdad, destaca-se, em 1750 a.C., uma nova cidade, Babilónia. Era célebre a biblioteca do palácio, e ainda as de Shaduppum e de Sippar.
Hattusa, cidade hoje a leste de Ancara, Turquia, era a capital do império hitita, importante civilização da Ásia Menor, porque a ela pertencia o domínio do segredo do ferro. Aí existia uma biblioteca cujas tabletas continham textos em oito línguas diferentes, e mais havia, nas cidades de Emar e Ugarit.
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Os grandes coleccionadores de livros do mundo antigo… Quem foram?
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Conquistador do império hitita, Ramsés II (1279 a.C.-1213 a.C.), adorado pelos gregos e egípcios, faz erigir um templo, Ramasseum, onde guardava a sua biblioteca sagrada, uma das primeiras bibliotecas de papiros. A ela chamava Lugar da Cura da Alma, compreensível pois que o seu espólio debruçava-se sobre a farmacologia e fontes esotéricas, num misto de medicina e magia.

Assurbanipal (668 a 627 a.C.), rei assírio, grande defensor da cultura, é o primeiro rei a saber escrever em tabletas. Erige uma grande biblioteca no seu palácio, na então cidade de Nínive, sendo o primeiro grande coleccionador de livros do mundo antigo.

Entre 1500 a.C. e 300 a.C. do Oriente Médio, em cinquenta e uma cidades, existiam 55 bibliotecas e 225 arquivos.

Os gregos chamavam ao livro byblos, em homenagem à cidade fenícia. Antes do papiro, Creta usava, à maneira suméria, a placa de argila aquecida. Aos gregos se deve o primeiro comércio dedicado ao livro, após a revolução cultural acontecida no séc. V, que impõe a cultura escrita à oral.

Aristóteles de Estagira (384 a.C.-322 a.C.), O Leitor, outro grande coleccionador de livros. Com a morte de Alexandre Magno, de quem era tutor, foge para a Ilha de Eubea, quando a ele fora atribuído o assassinato. Aí, lega em testamento a sua biblioteca a Teofrasto de Eleso, e este a Neleo, que, por sua vez, esta terá vendido à Biblioteca de Alexandria. Porque acreditava, também, na culpabilidade de Aristóteles, o imperador de Caracala terá, então, mandado queimar muitos dos livros do autor.
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Os livros… Quem os destruiu?
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Chamavam os egípcios às bibliotecas Casas da Vida. Nelas se guardavam e interpretavam os textos divinos. Se copiavam também. Construídos pelos faraós, o Ramasseum e a biblioteca de Edfu, no templo dedicado a Horus [aqui se expunha a imagem de Seshat, a deusa da escrita], podem ter sido os antepassados da biblioteca de Alexandria. Desapareceram quando os cristãos atacaram os monumentos pagãos do Egipto.

Após o assassinato de Ramsés III, Akhnatón mandou que se descobrissem os conspiradores. Porque um confessa ser possuidor de um papiro mágico, que o tornava num deus tão poderoso quanto o faraó, Akhnatón foi um dos primeiros a queimar livros, visando consolidar a religião.

Entre os biblioclastas conhecidos encontram-se alguns dos grandes filósofos. E reis. Seleuco, século II a.C., que ao ser nomeado rei, manda queimar todos os livros encontrados, para que com ele começasse a contagem de um tempo novo.
Quanto aos filósofos, motivos vários os moveram, negando o seu próprio discurso quando insuficiente (Platão, 427 a.C-347 a.C.), porque queimá-los significava que estes haviam sido absorvidos ao decorá-los (Bion de Borístenes, c. 335 a.C.-246 a.C.), ou porque consideraram esses textos fantasias pouco demonstráveis e úteis (Metrocles de Maronea, c. 325 a.C.).
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Alexandria, a mais famosa biblioteca do mundo antigo. Os livros terão sido destruídos pelo cristão Teófilo, que ataca o Serapeum (389 d.C), e a biblioteca (391 d.C.), destruindo o primeiro e saqueando a segunda. Se a destruição do Serapeum se sabe obra de Teófilo, já os romanos e árabes foram também apontados como possíveis destruidores da biblioteca.
Alvitra-se, ainda, que esta destruição possa ter sido devida a um terramoto, pois que estes eram frequentes, havendo deixado parte de Atenas submersa.
Rival de Alexandria, a Biblioteca de Pérgamo, cujos livros Marco António terá oferecido a Cleópatra como prova de amor, foi inovadora no uso de livros de couro e carneiro depois de Ptolomeu, dela invejoso, ter proibido a exportação de papiro para Pérgamo. Quer hajam sido destruídos, quer se tenham tornado parte do espólio de Alexandria, esta biblioteca também desapareceu.
No que aos primeiros livros gregos diz respeito, sabe-se que datados do século IX a.C., não existe hoje qualquer vestígio. E porque o primeiro conhecido é o Papiro Derveni (séc. IV a.C.), resultam quinhentos anos de memória perdida.
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Não só a Inquisição destruiu livros. Não só a imoralidade os condenou. Ou o receio do pensamento livre. Também a procura de uma perfeição absoluta, ou o recomeço.
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O Paraíso pode ser uma grande biblioteca, disse Borges. Lugar dos livros perdidos, quiçá, acrescento. Eterno retorno, entre a criação e a destruição, nascimento e morte.
O mito da destruição liga-se à essência dos deuses, num mesmo tempo criadores e devastadores. Fogo e água eram deuses, purificadores e renovadores.
Se a água foi o elemento natural que mais livros danificou, pelas inundações e humidade, o fogo foi o recurso apocalíptico por excelência, morte por negação/dissolução. Não do objecto enquanto ele mesmo, material, mas enquanto memória. É o fogo purificador o meio apurado pelos biblioclastas como o único capaz de quebrar esse vínculo livro/memória.
O fogo, elemento primordial na vida do homem.
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fonte
BAÉZ, Fernando. História Universal da Destruição dos Livros. Ediouro. Rio de Janeiro, 2006
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Imagens, Jonathan Wolstenholme
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3 comments:

peregrino said...

livros.
livros vivos.
livros mortos.

entre a pena do escritor
e o gládio do tirano, há fogo, gritos,
lágrimas, sangue e cinzas calcinadas.
sangue e lágrimas que escorrem dos pedaços de argila,
dos rolos de papiro, das páginas encadernadas...
ou não fosse o homem o lugar geométrico
entre os deuses e os demónios.
Sobre o sangue e as cinzas dos livros mortos
resta apenas o silêncio das palavras enterradas nas
sepulturas de água, terra e fogo
fustigadas pelos ventos efémeros de todas as memórias.
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Excelso “post”, como o são todos os que aqui nos deixas.

pedrita said...

bárbaro texto. amei as fotos tb. beijos, pedrita

Anonymous said...

Livros….
Velhos e eternos companheiros de sonhos, alegrias, desesperos e solidão, ouvido atento que escuta sem reclamar, boca amiga que fala sem elevar a voz, mão cúmplice que guia serenamente para o campo da imaginação sossegada.

Livros…
Escolhemos alguns deles como amigos para toda a vida.
Fazemos o mesmo com algumas pessoas.
Mas com eles, nunca discutimos ou discordamos.

Livros…
Através deles pode-se avaliar a cultura de um povo.
Quantas casas não têm um livro?

Livros….
Auxiliares de memória ou pilares de imaginação.
Páginas constantes, inalteráveis, testemunhos de época, muitas vezes pedra que cai no charco da apatia, antecipando e vendo mais longe.

Livros…


rigoletto